26 de março de 2010

24 de março de 2010

Essa tal solidão

Meu avô falava
de uma solidão intelectual..
Eu um dia lhe perguntei:
Vô, o que é isso?
E ele me respondeu:
_ É não ter com quem partilhar
nossos ideais,
é falar outra língua,
é sentir-se de outro lugar
em meio aos nossos conterrâneos...
Eu hoje sei e sinto plenamente
aquilo que o meu avô sentia...

23 de março de 2010

Desencanto

É tarde...
Os anéis não se agradam mais dos dedos,
os casacos estão impregnados pelo mofo,
as presilhas desencantaram-se dos cachos
e do tom pálido dos cabelos
Ah!Pequena infância que não volta mais...

19 de março de 2010

Ausência

Os papéis amontoam-se sobre a mesa.
Lápis e esferográficas perdem a doçura
e já me parecem sem porquê...
Com o passar do tempo, as folhas amarelam,
tomando para si uma cor de passado...
O vazio se instala perante uma completa
ausência de traços e quimeras.
Há silêncio e pó sobre a mesa
onde os papéis se amontoam
em um arranjo triste.

A poesia da imagem

A fragilidade

Canecas de chá
fumegam sobre a mesa...
O tempo lá fora está cinza,
tons de roxos tingem a barra do céu
e meu coração teme a chegada da chuva,
pois, é de papel.

A poesia da imagem

5 de fevereiro de 2010

Alinhavos

Na caixa de agulhas e linhas da minha avó,
havia uma linha que bordava cores na infância
e alinhavava o que de ruim poderia vir.
Eu herdei a caixa, mas,
nunca soube como ela,
costurar o tecido das infâncias
que a mim se apresentaram.

Bordo cores variando nuances, mas,
a linha sempre estoura nos alinhavos...
Venho, dia a dia, aumentando os bordados
para compensar a fragilidade
com que realizo os alinhavos...
Na esperança de que o pior nunca se apresente,
na esperança de que o pior nunca possa vir
intimidado pela variedade de cores,
intimidado pela quantidade de bordados...

O labor

No fogo,
o doce apura o gosto
A fruta serve a polpa
que o açúcar cuida de realçar.
No quintal,
Maria apura o branco
A água lhe serve o meio
que o trabalho cuida de realçar.

A senhora

A elegância da palavra, a sutileza.
A elegância da palavra, a nobreza.
A elegância da palavra, o porte altivo,
o jeito antigo de caminhar.

A palavra é uma senhora
de extrema delicadeza,
uma senhora de modos finos,
de caráter admirável.
Com essa senhora,
sento-me todo dia à mesa,
nas nossas velhas cadeiras
de espaldar alto.
Assim, costuramos e fiamos textos
que o livro da vida a nós confiou.

A poesia da imagem

11 de dezembro de 2009

Efêmero

Eu vou passar,
assim, como passaram
os que vieram antes de mim.
Longe estão meus avós, meus brinquedos de menina,
longe está a casa da minha infância...
Longe estão as costuras, os vestidos de tecido xadrez e florido
Tudo aos poucos se esvaindo...
Os perfumes perdem suas essências,
os papéis amarelam, as fotografias desbotam...
Tudo hoje me parece distante,
tudo parece estar indo,
tudo hoje me parece hoje tão efêmero...

7 de dezembro de 2009

A poesia da imagem

Ele

Tenho sentido um cansaço diferente...
Um cansaço de ter que ser.
Que bom seria ter tão somente
a exaustão do ofício ao sol,
do labor braçal.
Mas, ter que ser, diariamente,
quem por muitas vezes já não conheço
tem produzido em mim um cansaço infindo...

Ter que ser tem-me feito
perder chaves ou usá-las por demais
Esse cansaço, esse cansaço
não respeita o sono,
não reconhece o colchão
Usa por demais os verbos da exatidão
Esse cansaço, esse cansaço...

As paredes parecem cada vez mais distantes,
as cadeiras escondem-se sob as mesas...
Esse cansaço põe-me sempre de pé
Esse cansaço, esse cansaço, esse...

17 de novembro de 2009

Cansando

Sempre caminhei direito,
mas, ultimamente
reconheço em mim
a tendência de virar-me pelo avesso.

A ilusão

A beleza da curva...
O que esconde ou insinua...
Às vezes, dá vontade
de não terminá-la nunca...

4 de novembro de 2009

A costura da vida

Uma velha máquina
costurou minha vida:
saltando casas,
mastigando pontos,
quebrando agulhas,
embolando linhas...

Candura

Vestida de candura
chegou a poesia
E o dia tornou-se doce
e ricamente bem vestido.

Só

Em tantos outros prédios
vários cotidianos engaiolados
vivem alegremente.
Só eu, passarinho,
passo o dia, assim, calado.

Maquiagem

Um céu velho cobre o meu quintal,
estica suas dobras sobre o telhado
e suas andorinhas
Exibe sua costura e remendos
através das sombras que projeta
no jardim da casa do reverendo
Nas madrugadas frias
chora suas mágoas e chagas
por todo o roseiral
Depois, novamente retoca
com sombras mil, o já puído azul anil...

Ofício de viver

Na falta do papel e da pauta
teço versos em minh’alma
Versos de uma elegância quase triste,
versos de uma quase triste elegância.