26 de fevereiro de 2010
5 de fevereiro de 2010
Alinhavos
Na caixa de agulhas e linhas da minha avó,
havia uma linha que bordava cores na infância
e alinhavava o que de ruim poderia vir.
Eu herdei a caixa, mas,
nunca soube como ela,
costurar o tecido das infâncias
que a mim se apresentaram.
Bordo cores variando nuances, mas,
a linha sempre estoura nos alinhavos...
Venho, dia a dia, aumentando os bordados
para compensar a fragilidade
com que realizo os alinhavos...
Na esperança de que o pior nunca se apresente,
na esperança de que o pior nunca possa vir
intimidado pela variedade de cores,
intimidado pela quantidade de bordados...
havia uma linha que bordava cores na infância
e alinhavava o que de ruim poderia vir.
Eu herdei a caixa, mas,
nunca soube como ela,
costurar o tecido das infâncias
que a mim se apresentaram.
Bordo cores variando nuances, mas,
a linha sempre estoura nos alinhavos...
Venho, dia a dia, aumentando os bordados
para compensar a fragilidade
com que realizo os alinhavos...
Na esperança de que o pior nunca se apresente,
na esperança de que o pior nunca possa vir
intimidado pela variedade de cores,
intimidado pela quantidade de bordados...
O labor
No fogo,
o doce apura o gosto
A fruta serve a polpa
que o açúcar cuida de realçar.
No quintal,
Maria apura o branco
A água lhe serve o meio
que o trabalho cuida de realçar.
o doce apura o gosto
A fruta serve a polpa
que o açúcar cuida de realçar.
No quintal,
Maria apura o branco
A água lhe serve o meio
que o trabalho cuida de realçar.
A senhora
A elegância da palavra, a sutileza.
A elegância da palavra, a nobreza.
A elegância da palavra, o porte altivo,
o jeito antigo de caminhar.
A palavra é uma senhora
de extrema delicadeza,
uma senhora de modos finos,
de caráter admirável.
Com essa senhora,
sento-me todo dia à mesa,
nas nossas velhas cadeiras
de espaldar alto.
Assim, costuramos e fiamos textos
que o livro da vida a nós confiou.
A elegância da palavra, a nobreza.
A elegância da palavra, o porte altivo,
o jeito antigo de caminhar.
A palavra é uma senhora
de extrema delicadeza,
uma senhora de modos finos,
de caráter admirável.
Com essa senhora,
sento-me todo dia à mesa,
nas nossas velhas cadeiras
de espaldar alto.
Assim, costuramos e fiamos textos
que o livro da vida a nós confiou.
11 de dezembro de 2009
Efêmero
Eu vou passar,
assim, como passaram
os que vieram antes de mim.
Longe estão meus avós, meus brinquedos de menina,
longe está a casa da minha infância...
Longe estão as costuras, os vestidos de tecido xadrez e florido
Tudo aos poucos se esvaindo...
Os perfumes perdem suas essências,
os papéis amarelam, as fotografias desbotam...
Tudo hoje me parece distante,
tudo parece estar indo,
tudo hoje me parece hoje tão efêmero...
assim, como passaram
os que vieram antes de mim.
Longe estão meus avós, meus brinquedos de menina,
longe está a casa da minha infância...
Longe estão as costuras, os vestidos de tecido xadrez e florido
Tudo aos poucos se esvaindo...
Os perfumes perdem suas essências,
os papéis amarelam, as fotografias desbotam...
Tudo hoje me parece distante,
tudo parece estar indo,
tudo hoje me parece hoje tão efêmero...
7 de dezembro de 2009
Ele
Tenho sentido um cansaço diferente...
Um cansaço de ter que ser.
Que bom seria ter tão somente
a exaustão do ofício ao sol,
do labor braçal.
Mas, ter que ser, diariamente,
quem por muitas vezes já não conheço
tem produzido em mim um cansaço infindo...
Ter que ser tem-me feito
perder chaves ou usá-las por demais
Esse cansaço, esse cansaço
não respeita o sono,
não reconhece o colchão
Usa por demais os verbos da exatidão
Esse cansaço, esse cansaço...
As paredes parecem cada vez mais distantes,
as cadeiras escondem-se sob as mesas...
Esse cansaço põe-me sempre de pé
Esse cansaço, esse cansaço, esse...
Um cansaço de ter que ser.
Que bom seria ter tão somente
a exaustão do ofício ao sol,
do labor braçal.
Mas, ter que ser, diariamente,
quem por muitas vezes já não conheço
tem produzido em mim um cansaço infindo...
Ter que ser tem-me feito
perder chaves ou usá-las por demais
Esse cansaço, esse cansaço
não respeita o sono,
não reconhece o colchão
Usa por demais os verbos da exatidão
Esse cansaço, esse cansaço...
As paredes parecem cada vez mais distantes,
as cadeiras escondem-se sob as mesas...
Esse cansaço põe-me sempre de pé
Esse cansaço, esse cansaço, esse...
24 de novembro de 2009
23 de novembro de 2009
17 de novembro de 2009
5 de novembro de 2009
4 de novembro de 2009
A costura da vida
Uma velha máquina
costurou minha vida:
saltando casas,
mastigando pontos,
quebrando agulhas,
embolando linhas...
costurou minha vida:
saltando casas,
mastigando pontos,
quebrando agulhas,
embolando linhas...
Só
Em tantos outros prédios
vários cotidianos engaiolados
vivem alegremente.
Só eu, passarinho,
passo o dia, assim, calado.
vários cotidianos engaiolados
vivem alegremente.
Só eu, passarinho,
passo o dia, assim, calado.
Maquiagem
Um céu velho cobre o meu quintal,
estica suas dobras sobre o telhado
e suas andorinhas
Exibe sua costura e remendos
através das sombras que projeta
no jardim da casa do reverendo
Nas madrugadas frias
chora suas mágoas e chagas
por todo o roseiral
Depois, novamente retoca
com sombras mil, o já puído azul anil...
estica suas dobras sobre o telhado
e suas andorinhas
Exibe sua costura e remendos
através das sombras que projeta
no jardim da casa do reverendo
Nas madrugadas frias
chora suas mágoas e chagas
por todo o roseiral
Depois, novamente retoca
com sombras mil, o já puído azul anil...
Ofício de viver
Na falta do papel e da pauta
teço versos em minh’alma
Versos de uma elegância quase triste,
versos de uma quase triste elegância.
teço versos em minh’alma
Versos de uma elegância quase triste,
versos de uma quase triste elegância.
19 de outubro de 2009
Frio
Todo inverno é assim:
o frio interno misturando-se ao externo
e a alma a viver e a tremer seus dois invernos.
Bordado
Amor de menino
Minha professora era uma flor
e eu a guardei nas páginas
do meu livro velho.
Professora pequena,
professora, que pena,
o tempo te amarelou
e eu a guardei nas páginas
do meu livro velho.
Professora pequena,
professora, que pena,
o tempo te amarelou
16 de outubro de 2009
Tecido
O tecido chamou-se cetim
O cetim, vestido
O vestido, chamou-se de festa, de domingo
Missas e festas depois,
a moça viu-se fazendo no tecido um bordado,
mais tarde, um remendo.
Chamou-se roupa de casa,
pano de fundo para o avental.
Com o tempo, chamou-se passado.
(1º lugar no concurso SESI/FIEB de poesia do estado da Bahia)
O cetim, vestido
O vestido, chamou-se de festa, de domingo
Missas e festas depois,
a moça viu-se fazendo no tecido um bordado,
mais tarde, um remendo.
Chamou-se roupa de casa,
pano de fundo para o avental.
Com o tempo, chamou-se passado.
(1º lugar no concurso SESI/FIEB de poesia do estado da Bahia)
28 de agosto de 2009
Amor ao porto
Meu barquinho saiu para o mar
vela ao vento, vento a levar, verde a água...
Meu barquinho, um pingo no alto mar.
Vento vinha, vento ia...
O meu barquinho, sorridente,
atracou-se com o porto.
Coitadinho... Não sabia nadar.
vela ao vento, vento a levar, verde a água...
Meu barquinho, um pingo no alto mar.
Vento vinha, vento ia...
O meu barquinho, sorridente,
atracou-se com o porto.
Coitadinho... Não sabia nadar.
30 de julho de 2009
Nome
As Rosas,
As Hortências,
Dálias,
Margaridas...
E eu? Que faço eu na primavera
sem ter nome de flor?
As Hortências,
Dálias,
Margaridas...
E eu? Que faço eu na primavera
sem ter nome de flor?
Poeminha para Maria
Na sala o gol alto.
Silêncio por todo o quarto.
Lá no fundo, na cozinha,
as panelas viram brilho
e Maria perde o seu.
À essa hora,
parece que todas as mulheres
estão lavando panelas.
Silêncio por todo o quarto.
Lá no fundo, na cozinha,
as panelas viram brilho
e Maria perde o seu.
À essa hora,
parece que todas as mulheres
estão lavando panelas.
25 de maio de 2008
Planetinha
O passarinho na sua gaiola a olhar a vida.
O canto triste, o canto sempre pequeno.
De novo, só um vento amenoa balançar seu planetinha de penas e ais.
O canto triste, o canto sempre pequeno.
De novo, só um vento amenoa balançar seu planetinha de penas e ais.
Arremate
Com uma linha costurei minha vida a tua
Meu coração, como botão,
fechou rápido a casa
que dava saída para o mundo vão
Ponto por ponto,
bordei flores,
sóis,
girassóis
e bem-te-vis
No dia a dia,
um botão caiu
Você nem viu
Um ponto soltou,
você nem notou,
nem eu
Passado o tempo,
fiz um remendo
como um alento
Meu coração não deu mais botão
e a casa ficou aberta para o mundo vão
Em vão,
novamente remendei,
emendei.
Amor, não recebi,
amor, não dei.
Ponto a ponto,
o amor se descosturou
Fio a fio,
se desprendeu.
Na falta dos botões,
na falta de um arremate.
Meu coração, como botão,
fechou rápido a casa
que dava saída para o mundo vão
Ponto por ponto,
bordei flores,
sóis,
girassóis
e bem-te-vis
No dia a dia,
um botão caiu
Você nem viu
Um ponto soltou,
você nem notou,
nem eu
Passado o tempo,
fiz um remendo
como um alento
Meu coração não deu mais botão
e a casa ficou aberta para o mundo vão
Em vão,
novamente remendei,
emendei.
Amor, não recebi,
amor, não dei.
Ponto a ponto,
o amor se descosturou
Fio a fio,
se desprendeu.
Na falta dos botões,
na falta de um arremate.
25 de julho de 2007
Para ir ao mar
Era uma escola pública.
Pequena, com apenas quatro salas, teto de telha colonial sem forro, paredes pintadas de branco, janelas azuis, um pátio interno e uma área de terra batida ao fundo, mas aquela escola pequenina exalava vida e alegria.
Era lá que a minha mãe dava aulas. Seus alunos, meninos pobres vindos dos bairros mais simples daquela cidade do interior.
Eu era uma das alunas da professora da terceira série e também sua filha.
Lembro-me que andávamos 2,5 Km do sítio que morávamos até a escola. Não havia ônibus que passasse por ali naquele horário. A caminhada era longa e exaustiva para uma menininha de apenas oito anos. Quando o dia estava quente, chegávamos a escola com as bochechas vermelhas e a roupa já suada. Se o tempo era de chuvas era certo chegarmos encharcadas, mesmo com a proteção da linda sombrinha de flores rosas que vovó tinha me dado no natal. Os caminhões passavam na estrada de barro vermelho dando banho em nós.
Minha mãe, com chuva ou sol, ia contando estórias para nos distrair, mostrando os girinos no riacho à beira da estrada e muitas vezes ia cantando músicas folclóricas ou Ave Marias como as de Gounod ou Schubert que ela havia aprendido no tempo de juventude no coral da professora Zélia. Com a presença musical de mamãe, parecia que a distância era vencida com mais rapidez e assim, logo avistávamos o portão da escola.
A aula da minha mãe-professora era uma beleza! Ela gostava do que fazia e o fazia muito bem. Ensinava o português, a matemática, a história, a geografia... e ia além aconselhando, incentivando, ouvindo as estórias de cada um com respeito e carinho.
Esse seu modo de ser contagiava todos nós que víamos naquela professora de terceira série uma santa, uma fada, uma rainha.
Na hora do recreio o sino batia forte na mão da diretora e lá íamos nós como aves de arribação fazer vôos rasteiros sobre a área de terra batida. As meninas a jogar amarelinha, pular corda, brincar de passar anel. Os meninos, sempre afastados de nós, as quais achavam umas “molóides”, brincavam de pique-bandeira e polícia e ladrão.
Não posso deixar de falar da merenda. Ah! A merenda! Eu adorava quando era Ki-suco de morango com sonho. Quantas vezes pudesse, eu entrava de novo na fila e repetia. Dona Maria, a merendeira, me olhava e sorria .
A minha barriga cheinha de sonhos sempre dormia antes de mim.
Entre as crianças da escola havia algo em comum: todas (com exceção da minha irmã e de mim) iam para a aula com sandálias chamadas “havaianas”. A maioria não tinha sapatos ou os famosos congas ( o tênis do meu tempo) que eu e a minha irmã usávamos.
Eu sonhava em poder um dia também ir de sandálias “havaianas” arrastando-as despretenciosa e relaxadamente como faziam os meus colegas.
Na hora do hino nacional, o que sempre acontecia antes de começar a aula eu me perdia a olhar aquele mar de sandálias azuis, amarelas, brancas, verdes, muitas com correias amarradas com arame ou barbante. Tinham também aquelas bicolores, que deviam ser resultado de uma palmilha de um irmão com as tiras de alguma outra sandália já não de serventia do pai, da mãe ou até de um primo.
Eu fechava os olhos e via-me ora com uma cor, ora com outra. Meus dedos livres, exibidos. Os pés sujos da poeira da rua, as unhas olhando para todo lado curiosas e faceiras.
Ah! Se mamãe soubesse que eu preferia as sandálias, quando tinha feito tanto esforço para comprar meu conga, o único par vermelho da loja. Olhava para ela e sentia pena. Não tinha coragem de tirar dela aquela ilusão.
E assim, sonhando com as sandálias passei quase toda a terceira série, até que em uma tarde de segunda-feira do mês de setembro, na hora de vestir a farda mamãe olhou-me por um longo tempo e por fim mandou-me buscar as sandálias “havaianas” que eu usava em casa. Sem entender muito bem, corri para pegá-las. Mamãe então, abaixou-se e com a delicadeza tão natural dela, calçou meus pés. Depois, abraçou-me e disse: - “O conga precisa descansar das caminhadas”. Sem dizer mais nada pegou-me pela mão e saímos em direção da estrada.
Tudo passou rápido: a estrada, o riacho com girinos...
Mamãe nem precisou cantar naquele dia, porque eu mesma me encarreguei disso e quando cheguei a escola entrei gloriosa.
Na hora do hino, eu estava lá no meio do mar de sandálias coloridas. Mamãe lá da frente piscou para mim. Meu Deus! – pensei. Ela sabia o tempo todo!
Pisquei também para ela.
Lá de fora da escola, quem passasse ouviria a voz de uma criança que cantava mais alto que todas as outras. Quem observasse o recreio, veria uma menininha de oito anos pulando, saltando e correndo sem parar.
Eu era igual a todas as outras crianças simples e humildes...
E para que eu fosse feliz bastava um par de sandálias “havaianas” para ir ao mar...
Cynara Novaes
Pequena, com apenas quatro salas, teto de telha colonial sem forro, paredes pintadas de branco, janelas azuis, um pátio interno e uma área de terra batida ao fundo, mas aquela escola pequenina exalava vida e alegria.
Era lá que a minha mãe dava aulas. Seus alunos, meninos pobres vindos dos bairros mais simples daquela cidade do interior.
Eu era uma das alunas da professora da terceira série e também sua filha.
Lembro-me que andávamos 2,5 Km do sítio que morávamos até a escola. Não havia ônibus que passasse por ali naquele horário. A caminhada era longa e exaustiva para uma menininha de apenas oito anos. Quando o dia estava quente, chegávamos a escola com as bochechas vermelhas e a roupa já suada. Se o tempo era de chuvas era certo chegarmos encharcadas, mesmo com a proteção da linda sombrinha de flores rosas que vovó tinha me dado no natal. Os caminhões passavam na estrada de barro vermelho dando banho em nós.
Minha mãe, com chuva ou sol, ia contando estórias para nos distrair, mostrando os girinos no riacho à beira da estrada e muitas vezes ia cantando músicas folclóricas ou Ave Marias como as de Gounod ou Schubert que ela havia aprendido no tempo de juventude no coral da professora Zélia. Com a presença musical de mamãe, parecia que a distância era vencida com mais rapidez e assim, logo avistávamos o portão da escola.
A aula da minha mãe-professora era uma beleza! Ela gostava do que fazia e o fazia muito bem. Ensinava o português, a matemática, a história, a geografia... e ia além aconselhando, incentivando, ouvindo as estórias de cada um com respeito e carinho.
Esse seu modo de ser contagiava todos nós que víamos naquela professora de terceira série uma santa, uma fada, uma rainha.
Na hora do recreio o sino batia forte na mão da diretora e lá íamos nós como aves de arribação fazer vôos rasteiros sobre a área de terra batida. As meninas a jogar amarelinha, pular corda, brincar de passar anel. Os meninos, sempre afastados de nós, as quais achavam umas “molóides”, brincavam de pique-bandeira e polícia e ladrão.
Não posso deixar de falar da merenda. Ah! A merenda! Eu adorava quando era Ki-suco de morango com sonho. Quantas vezes pudesse, eu entrava de novo na fila e repetia. Dona Maria, a merendeira, me olhava e sorria .
A minha barriga cheinha de sonhos sempre dormia antes de mim.
Entre as crianças da escola havia algo em comum: todas (com exceção da minha irmã e de mim) iam para a aula com sandálias chamadas “havaianas”. A maioria não tinha sapatos ou os famosos congas ( o tênis do meu tempo) que eu e a minha irmã usávamos.
Eu sonhava em poder um dia também ir de sandálias “havaianas” arrastando-as despretenciosa e relaxadamente como faziam os meus colegas.
Na hora do hino nacional, o que sempre acontecia antes de começar a aula eu me perdia a olhar aquele mar de sandálias azuis, amarelas, brancas, verdes, muitas com correias amarradas com arame ou barbante. Tinham também aquelas bicolores, que deviam ser resultado de uma palmilha de um irmão com as tiras de alguma outra sandália já não de serventia do pai, da mãe ou até de um primo.
Eu fechava os olhos e via-me ora com uma cor, ora com outra. Meus dedos livres, exibidos. Os pés sujos da poeira da rua, as unhas olhando para todo lado curiosas e faceiras.
Ah! Se mamãe soubesse que eu preferia as sandálias, quando tinha feito tanto esforço para comprar meu conga, o único par vermelho da loja. Olhava para ela e sentia pena. Não tinha coragem de tirar dela aquela ilusão.
E assim, sonhando com as sandálias passei quase toda a terceira série, até que em uma tarde de segunda-feira do mês de setembro, na hora de vestir a farda mamãe olhou-me por um longo tempo e por fim mandou-me buscar as sandálias “havaianas” que eu usava em casa. Sem entender muito bem, corri para pegá-las. Mamãe então, abaixou-se e com a delicadeza tão natural dela, calçou meus pés. Depois, abraçou-me e disse: - “O conga precisa descansar das caminhadas”. Sem dizer mais nada pegou-me pela mão e saímos em direção da estrada.
Tudo passou rápido: a estrada, o riacho com girinos...
Mamãe nem precisou cantar naquele dia, porque eu mesma me encarreguei disso e quando cheguei a escola entrei gloriosa.
Na hora do hino, eu estava lá no meio do mar de sandálias coloridas. Mamãe lá da frente piscou para mim. Meu Deus! – pensei. Ela sabia o tempo todo!
Pisquei também para ela.
Lá de fora da escola, quem passasse ouviria a voz de uma criança que cantava mais alto que todas as outras. Quem observasse o recreio, veria uma menininha de oito anos pulando, saltando e correndo sem parar.
Eu era igual a todas as outras crianças simples e humildes...
E para que eu fosse feliz bastava um par de sandálias “havaianas” para ir ao mar...
Cynara Novaes
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