20 de maio de 2011

Árido

Tudo era simples e frágil e eu sabia...
Tudo era doce e o sal não existia
Até que a noite entrou pela porta
quando ainda era hora do dia
Uma aridez sem fim, então, se apresentou
e sem pedir licença habitou em mim
A memória aos poucos se perdeu,
os olhos desconheceram a luz,
a palavra afastou-se da voz...
Vivo agora o inverno
como se outra estação não houvesse
Ouço chamados, mas, não tenho respostas.
Perante a escuridão e a ausência de afetos
cubro-me com retalhos do passado e durmo sobre mim.

11 de abril de 2011

Frio

A porta fechou antes que a luz acendesse,
antes que a mão tocasse a chave.
E lá dentro, perdeu-se o mundo...
Nunca mais houve notícia
do quarto onde a velha máquina descansava,
da sala e seu perfume ,
do sofá  vermelho, já puído,
do vaso em flor, do lume.
Perdeu-se o mundo,
quando a porta recusou-se a esperar,
quando a mão não pode tocar a chave ,
quando os olhos não viram a claridade.
O mundo, o mundo lá dentro se perdeu...
Aqui fora, com um frio que não conhece cobertor,
vaga, sozinha, a dor.

7 de abril de 2011

Cortesia

Maria esqueceu seu canto...
A vida lhe é árida
Na plantação frente à porta
nada brota, nada frutifica
Da janela de Maria
não se vê cor, muito menos companhia
Mas, ela ainda sonha em ser
a eleita de uma cortesia
e ter no brilho da panela que lava
o reflexo mais que perfeito da sua alegria.

Partidas

Os sapatos,
os sapatos
já não me são mais confortáveis
e assim, têm mudado o meu jeito de caminhar

Os óculos,
os óculos
não mais me favorecem ver o horizonte
e, então, tenho vivido de ver ao redor. E só.

Os casacos,
os casacos
já estão com as mangas curtas
como se quisessem tirar de mim
o prazer de me aquecer
então, fico longas horas juntando folhas
para garantir que o outono não irá partir.

A casa,
a casa,
a vida,
a vida...

Poeminha de amor a chuva

Gosto de dias chuvosos...
Parece-me que tenho a alma lavada
Gosto de nuvens pesadas
porque percebo que não carrego quase nada.
Gosto de trovões porque silenciam a minha fala
Mas, os raios...
Deles tenho receio,
pois, chegam sempre antes
do som que produz o meu medo.


18 de março de 2011

Branco

Quando dormi
tive medo de sonhar e acordei
Do perfume tive medo da essência e me lavei
Na música não compreendi a partitura e me calei
Do livro só lia fragmentos e me fechei
Na memória eu buscava e buscando nada achava
A infância, o verde, a casa...
Restou-me o vazio e nele sinto dor e frio.

9 de março de 2011

Registros

A fotografia da infância
perdeu o cheiro das amoras
Os antepassados em preto e branco
com seus traços já desbotados...
O livro que guarda a flor
tem cheiro de bolor e tom amarelado...

O sorrisos são brancos,
mas, se escondem.
Passam o dia mudando de lugar
em uma perigosa brincadeira de enganar

Em um quarto escuro,
as lágrimas não se cansam de radiografar
dores, ausências, mágoas
e tudo mais que de salgado há...

19 de outubro de 2010

A poesia da imagem

Hóspedes

Hospedo antepassados.
Dormem em mim
minhas pequenas avós
Contam memórias
bisavós e contemporâneos...
Uso, com naturalidade,
as frases e os gestos do meu avô.
Ouço tias caminhando...
Em um canto, trisavós costuram,
fiam, plantam, colhem...
Tenho construído quartos,
arejado salas, decorado varandas,
a espera dos meus futuros hóspedes.
Até que um dia eu, também,
venha a procurar hospedarias...

1 de setembro de 2010

A poesia da imagem

Guardados

Até quando poderei guardar
o sal e o doce,
a luz e as sombras
dos segredos que só eu sei?

Até quando vou me reportar,
arquivar e me calar
sobre os segredos que só eu sei?

Até quando vou dobrar,
arejar e perfumar
Recorrer, desdobrar
e prevenir de amarelar os segredos que só eu sei?

Até quando vou acalentar,
suprimir, engavetar
emudecer e disfarçar os segredos que só eu sei?

Até quando vou simplesmente amar
não pedir, nem lamentar
o tempo que dediquei aos segredos que só eu sei?

São preciosos e delicados,
divinos e deliciosos os segredos que só eu sei,
porque deles, só eu sei.

6 de agosto de 2010

Abajur

Passarinho no fio
vendo o dia que morre
temendo o frio da noite,
esperando a hora redonda
em que a lua acende o seu abajur amarelo.

E o dia, por fim, morre.
A noite treme de frio,
cobre-se de estrelas,
na exata hora redonda
em que a lua acende o seu abajur amarelo.

Nome

As Rosas,
As Hortências,
Dálias,
Margaridas...
E eu? Que faço eu na primavera
sem ter nome de flor?

2 de junho de 2010

A poesia da imagem

Os excessos

Os excessos me incomodam,
preciso limpá-los.
Tudo claro,
tudo pouco,
branco.
Sempre é época de podas.
Só os galhos necessários,
o espaço para o que há de vir
Uma casa para o botão ir e voltar,
um corpo onde o vento possa circular,
cada coisa com o tempo de ficar.

26 de abril de 2010

A poesia da imagem

Ecos

Quando eu era pequena
o mundo parecia-me tão grande...
A casa tinha portas enormes,
cadeiras para gigantes,
camas de colchões sem fim...
Deitada no chão vermelho da varanda
o teto era quase um céu.
As telhas formavam-se para chover...
Longe, distante,
alto, alto...
Hoje a minha antiga casa
é um ponto no caminho que passo.
As cadeiras nos acomodam mal,
os colchões parecem caber
tão somente o espaço de deitar.
O teto aproxima-se cada vez mais...
Pequeno, curvado,
como se fosse cair.
Assim,baixo, baixo...
Os ecos dos sorrisos
não me são mais permitidos.