1 de agosto de 2011
Em fios
Fui desfiando-me de modo tão sutil
que quem estava ao meu lado não notou
O último fio desprendeu-se do centro
como a luz da vela quando extingue seu alimento
Deixei compridos fios por tecer
sobre a feitura da cortina da noite
Com eles faria, ainda, emendas
revelando, talvez muito tardiamente,
os segredos do desenrolar da luz do dia.
15 de julho de 2011
O azul
Na sala quieta, a poeira assentava-se
sobre o guarda-louças.
No quintal onde a velha cerca repousava,
o vento acordava a roseira
Só eu sonhava na escada que levava
ao sossego da varanda,
encantada com o tecido da vida,
ainda azul, com bolinhas da mesma cor...
Primor
A biblioteca cheirava a saber
e eu tinha fome e sede
Apresentei-me, sem reservas,
àquele mundo silencioso e doce
À minha primeira refeição,
denominei Banquete,
mas, ao continuar, chamei-a Primor.
13 de julho de 2011
15 de junho de 2011
A Cristaleira
A cristaleira
dava o tom de requinte a casa
mesmo, que no todo
seu desarranjo se fizesse notar...
No canto reservado, ela mantinha-se
repleta de histórias registradas
em copos e taças de cristal
Minha avó dava o seu toque:
havia sempre um pão com
saborosa manteiga sobre o primeiro vão.
Esse visitante, porém, jamais tirou daquela
cristaleira sua elegância natural
Enquanto as peças antigas mostravam
pelo vidro sua original composição,
ele era o perfume que, com singeleza,
realçava a nobreza e o lume dos cristais.
13 de junho de 2011
Sombrinha
Pequena, desejei ter uma sombrinha.
Não pela proteção que dela teria,
mas, pelo efeito que a pronúncia
do seu nome em mim exercia...
31 de maio de 2011
O que antes era encanto
Quando os sapatos já estão gastos,
quando a linha se desprende da roupa,
quando o tecido, puído, desfaz o bordado,
o que era encanto perde a graça
e a vida, de repente, leva embora o que até então,
pertencia tão somente as delícias do coração.
Quando os fios dos cabelos perdem o tom,
quando as mãos, buscam, em vão,
o que antes era fácil e tão somente seu,
o que era encanto perde a graça...
Discretamente o tempo vai, assim, fechando as portas
e o que era belo, já não se nota:
Lembranças de dias claros,
perfumes de primaveras,
sonhos doces, quimeras,
tornam-se borrões presos em algum canto da memória.
Uma tristeza sem medida invade a casa
onde antes morava a vida
Falta sol, açúcar, sal, falta tempo.
O silêncio toma conta de tudo
e a quietude passa, por fim, a ser normal.
24 de maio de 2011
20 de maio de 2011
Árido
Tudo era simples e frágil e eu sabia...
Tudo era doce e o sal não existia
Até que a noite entrou pela porta
quando ainda era hora do dia
Uma aridez sem fim, então, se apresentou
e sem pedir licença habitou em mim
A memória aos poucos se perdeu,
os olhos desconheceram a luz,
a palavra afastou-se da voz...
Vivo agora o inverno
como se outra estação não houvesse
Ouço chamados, mas, não tenho respostas.
Perante a escuridão e a ausência de afetos
cubro-me com retalhos do passado e durmo sobre mim.
3 de maio de 2011
18 de abril de 2011
11 de abril de 2011
Frio
A porta fechou antes que a luz acendesse,
antes que a mão tocasse a chave.
E lá dentro, perdeu-se o mundo...
Nunca mais houve notícia
do quarto onde a velha máquina descansava,
da sala e seu perfume ,
do sofá vermelho, já puído,
do vaso em flor, do lume.
Perdeu-se o mundo,
quando a porta recusou-se a esperar,
quando a mão não pode tocar a chave ,
quando os olhos não viram a claridade.
O mundo, o mundo lá dentro se perdeu...
Aqui fora, com um frio que não conhece cobertor,
vaga, sozinha, a dor.
7 de abril de 2011
Cortesia
Maria esqueceu seu canto...
A vida lhe é árida
Na plantação frente à porta
nada brota, nada frutifica
Da janela de Maria
não se vê cor, muito menos companhia
Mas, ela ainda sonha em ser
a eleita de uma cortesia
e ter no brilho da panela que lava
o reflexo mais que perfeito da sua alegria.
Partidas
Os sapatos,
os sapatos
já não me são mais confortáveis
e assim, têm mudado o meu jeito de caminhar
Os óculos,
os óculos
não mais me favorecem ver o horizonte
e, então, tenho vivido de ver ao redor. E só.
Os casacos,
os casacos
já estão com as mangas curtas
como se quisessem tirar de mim
o prazer de me aquecer
então, fico longas horas juntando folhas
para garantir que o outono não irá partir.
A casa,
a casa,
a vida,
a vida...
Poeminha de amor a chuva
Gosto de dias chuvosos...
Parece-me que tenho a alma lavada
Gosto de nuvens pesadas
porque percebo que não carrego quase nada.
Gosto de trovões porque silenciam a minha fala
Mas, os raios...
Deles tenho receio,
pois, chegam sempre antes
do som que produz o meu medo.
18 de março de 2011
Branco
Quando dormi
tive medo de sonhar e acordei
Do perfume tive medo da essência e me lavei
Na música não compreendi a partitura e me calei
Do livro só lia fragmentos e me fechei
Na memória eu buscava e buscando nada achava
A infância, o verde, a casa...
Restou-me o vazio e nele sinto dor e frio.
tive medo de sonhar e acordei
Do perfume tive medo da essência e me lavei
Na música não compreendi a partitura e me calei
Do livro só lia fragmentos e me fechei
Na memória eu buscava e buscando nada achava
A infância, o verde, a casa...
Restou-me o vazio e nele sinto dor e frio.
11 de março de 2011
9 de março de 2011
Registros
A fotografia da infância
perdeu o cheiro das amoras
Os antepassados em preto e branco
com seus traços já desbotados...
O livro que guarda a flor
tem cheiro de bolor e tom amarelado...
O sorrisos são brancos,
mas, se escondem.
Passam o dia mudando de lugar
em uma perigosa brincadeira de enganar
Em um quarto escuro,
as lágrimas não se cansam de radiografar
dores, ausências, mágoas
e tudo mais que de salgado há...
24 de fevereiro de 2011
19 de outubro de 2010
Hóspedes
Hospedo antepassados.
Dormem em mim
minhas pequenas avós
Contam memórias
bisavós e contemporâneos...
Uso, com naturalidade,
as frases e os gestos do meu avô.
Ouço tias caminhando...
Em um canto, trisavós costuram,
fiam, plantam, colhem...
Tenho construído quartos,
arejado salas, decorado varandas,
a espera dos meus futuros hóspedes.
Até que um dia eu, também,
venha a procurar hospedarias...
Dormem em mim
minhas pequenas avós
Contam memórias
bisavós e contemporâneos...
Uso, com naturalidade,
as frases e os gestos do meu avô.
Ouço tias caminhando...
Em um canto, trisavós costuram,
fiam, plantam, colhem...
Tenho construído quartos,
arejado salas, decorado varandas,
a espera dos meus futuros hóspedes.
Até que um dia eu, também,
venha a procurar hospedarias...
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