Cerquei a vida assim como cercam-se as hortas, os quintais,
as promessas, em sumo, dos laranjais
Mas a vida acercou-se de mim, de tal modo,
que perdi a curva do rio, a viagem do frio, o apito do trem.
Apaguei, como se apagam os textos impensados,
os bilhetes de amor mal elaborados,
o princípio das cercas e já vejo curvas lá longe,
onde nascem os pés dos montes.
16 de setembro de 2014
29 de maio de 2014
Só tu
Escondo-me onde nem supões:
nas dobras do teu casaco,
na casa dos teus botões,
na intenção dos sapatos,
na afinação das canções...
Escondo-me...
Mas, meu desejo é que tu me aches
e me prendas onde eu jamais supunha.
Onde só tu, amorosa e docemente, supões.
Cynara Novaes
nas dobras do teu casaco,
na casa dos teus botões,
na intenção dos sapatos,
na afinação das canções...
Escondo-me...
Mas, meu desejo é que tu me aches
e me prendas onde eu jamais supunha.
Onde só tu, amorosa e docemente, supões.
Cynara Novaes
5 de abril de 2014
Há um porque
para a trama da renda,
para o vazio
da fenda
Há sabedoria
na doçura e no fel,
na dimensão
amorosa do anel
Há que se
preze a ausência
e a urgência
que solicita a escrita à solidão do papel
Versa a
colher para o chá,
reconhecendo
a necessidade de amar
Versa a água
e o sabão pela brancura do chão
Versa o trigo
e a fome na urgente necessidade do pão
Clama a
delicadeza pela mão, escondendo-se da acidez do limão
Sussurra o
verbo e o querer por que é natural ao que ama buscar ser
Estende-se o
varal, alonga-se a sombra, espreguiça-se a vida...
Em algum
canto tintas pintam tecidos desejosos de cobrir amores,
revestir de
viços cirandas e meninas,
afastando
para longe a poeira que esconde a profusão inebriante das cores.
26 de agosto de 2013
19 de agosto de 2013
No princípio do sereno
quando ainda nem é manhã,
o rio segreda desejos
de conhecer outras curvas,
de carregar outras sonhos
em barcos récem feitos
por mãos sedentas de mar.
Quando o sereno já é quase sol
e há um vislumbre de peixe
na traição do anzol,
o rio percebe-se sonho
e acha a velha curva bonita
como se nunca a tivesse contornado...
Tudo, então, é desejo e paixão líquida
prontos para ser refeitos
nas horas de outas primeiras manhãs.
quando ainda nem é manhã,
o rio segreda desejos
de conhecer outras curvas,
de carregar outras sonhos
em barcos récem feitos
por mãos sedentas de mar.
Quando o sereno já é quase sol
e há um vislumbre de peixe
na traição do anzol,
o rio percebe-se sonho
e acha a velha curva bonita
como se nunca a tivesse contornado...
Tudo, então, é desejo e paixão líquida
prontos para ser refeitos
nas horas de outas primeiras manhãs.
29 de julho de 2013
A rotina permitia-me ter a sensação de pertencer
ora à brancura do trigo recém entregue ao pão,
ora à semente dos temperos confiados a terra.
Agradava-me o pertencimento,
as possibilidades diárias de ir e voltar,
as combinações dispostas sobre a mesa.
O dia brando,
a certeza do sossego como se rede fosse,
favorecia-me o encontro com a escrita.
Talvez por isso ou tão somente por isso,
amasse tanto o pertencer, pois era ele
que me protegia de todo e qualquer frio
que um dia eu pudesse vir a conhecer.
4 de fevereiro de 2013
O calor molhava de suor
o caminho que nos levava ao riacho
Lá, panelas ganhavam brilho perante a mistura
do sabão de coco à areia molhada
Louças voltavam a cor original, tendo realçados
seus mais finos traços e desenhos delicados
Talheres sujeitavam-se ao polimento da bucha vegetal
sob os olhares da natureza silenciosa e contemplativa
Ao final, tudo era ajeitado no interior da gamela
com a mesma doçura de quem desperta a primavera,
tece rendas ou tinge ou quintal.
Lá na roça, onde tudo era verde a colher
eu, sozinha, me bastava.
Tinha o dia nas mãos e pronto o tecido da noite
Bebia da chuva, vestia a primavera,
falava laranjeiras e ouvia maracujás
Tudo era sabor de araçá.
Sombras escondiam o chão, árvores cochilavam,
sementes germinavam leituras e livros floresciam margaridas
O mundo amadurecia lenta e sabiamente
perante o silêncio das palavras e
23 de janeiro de 2013
9 de janeiro de 2013
7 de setembro de 2012
Simples
A cerca velha de bambu guarda o quintal
Onze horas misturam-se aos temperos
sob os olhos dos tecidos do varal
A cozinha cheira a pão e café,
a janela verde sorri e o portão respira aliviado
O tempo, por fim, vai se deitar.
Tudo é silêncio colhido no pé
16 de agosto de 2012
Enquanto os vejo...
Os varais me encantam...
(escrevo enquanto vejo-os balançar)
São felizes, repletos de possibilidades.
Neles convivem, harmonicamente,
o velho, o cerzido, o novo e o tantas vezes tingido...
O engomado, o mal lavado e o roto
O preto, o branco e o absurdamente colorido.
E todos a mim parecem ser só sorrisos...
8 de agosto de 2012
Aos poucos vão se apagando...
Tenho sentido um cansaço profundo
de querer viver a poesia
contrariando as borrachas negras do mundo
Se faço vestidos florais, logo os vejo rotos
Ensaio brincadeiras de infância
nos mais verdes quintais
Desenho a rima e a letra,
desfaço-me das medidas
nas quais se enquadram temporais
Subo e desço em teias
tecendo novos varais,
mesmo assim, as borrachas,
de cores de tempestade,
apagam as minhas metades
de futuros milharais.
19 de julho de 2012
Sim
No dia nada havia
Na noite, também
Conforme os dias se passaram,
compreendi que não tinha ninguém.
19 de junho de 2012
Assim
Quando emudeci o dia falava por demais
Varais balançavam-se ao dispor,
mas, nada parecia querer balançar...
Quando emudeci era dia
e a manhã vestida de sorrisos
estendia-se querendo invadir a tarde,
mas, nada parecia querer sorrir...
Quando falei a noite estava alta
e um sono doce, repleto de sonhos impossíveis,
habitava travesseiros e colchões.
Mas, não havia ninguém para ouvir...
Eu, então, emudeci.
19 de maio de 2012
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