29 de maio de 2014


Só tu

Escondo-me onde nem supões:
nas dobras do teu casaco, 
na casa dos teus botões,
na intenção dos sapatos,
na afinação das canções...
Escondo-me...
Mas, meu desejo é que tu me aches
e me prendas onde eu jamais supunha.
Onde só tu, amorosa e docemente, supões.
Cynara Novaes

5 de abril de 2014


Há um porque para a trama da renda,
para o vazio da fenda
Há sabedoria na doçura e no fel,
na dimensão amorosa do anel
Há que se preze a ausência
e a urgência que solicita a escrita à solidão do papel
Versa a colher para o chá,
reconhecendo a necessidade de amar
Versa a água e o sabão pela brancura do chão
Versa o trigo e a fome na urgente necessidade do pão
Clama a delicadeza pela mão, escondendo-se da acidez do limão
Sussurra o verbo e o querer por que é natural ao que ama buscar ser
Estende-se o varal, alonga-se a sombra, espreguiça-se a vida...
Em algum canto tintas pintam tecidos desejosos de cobrir amores,
revestir de viços cirandas e meninas,
afastando para longe a poeira que esconde a profusão inebriante das cores.





19 de agosto de 2013

No princípio do sereno
quando ainda nem é manhã,
o rio segreda desejos
de conhecer outras curvas,
de carregar outras sonhos
em barcos récem feitos
por mãos sedentas de mar.
Quando o sereno já é quase sol
e há um vislumbre de peixe
na traição do anzol,
o rio percebe-se sonho
e acha a velha curva bonita
como se nunca a tivesse contornado...
Tudo, então, é desejo e paixão líquida
prontos para ser refeitos
nas horas de outas primeiras manhãs.
Tenho desejos de ir
e espreito as possibilidades:
a barra do dia, a renda da noite,
o frio, o riso, o açoite...
Você resolve tudo
quando me acena com ofertas de calor...
Aí, então, o rio é pequeno,
o barco é seu aceno
no pequeno espaço do ancoradouro
ao qual chamo de amor.

29 de julho de 2013


Cada dia tenho menos daquelas coisas
que nunca deveria ter tido
e pertenço-me mais
e mais me compreendo
porque tenho, a cada dia, muito menos.



A rotina permitia-me ter a sensação de pertencer
ora à brancura do trigo recém entregue ao pão,
ora à semente dos temperos confiados a terra.
Agradava-me o pertencimento,
as possibilidades diárias de ir e voltar,
as combinações dispostas sobre a mesa.

O dia brando,
a certeza do sossego como se rede fosse,
favorecia-me o encontro com a escrita.
Talvez por isso ou tão somente por isso,
amasse tanto o pertencer, pois era ele
que me protegia de todo e qualquer frio
que um dia eu pudesse vir a conhecer.


4 de fevereiro de 2013


O calor molhava de suor
o caminho que nos levava ao riacho
Lá, panelas ganhavam brilho perante a mistura
do sabão de coco à areia molhada
Louças voltavam a cor original, tendo realçados
seus mais finos traços e desenhos delicados
Talheres sujeitavam-se ao polimento da bucha vegetal
sob os olhares da natureza silenciosa e contemplativa
Ao final, tudo era ajeitado no interior da gamela
com a mesma doçura de quem desperta a primavera,
tece rendas ou tinge ou quintal.



Lá na roça, onde tudo era verde a colher
eu, sozinha, me bastava.
Tinha o dia nas mãos e pronto o tecido da noite
Bebia da chuva, vestia a primavera,
falava laranjeiras e ouvia maracujás
Tudo era sabor de araçá.
Sombras escondiam o chão, árvores cochilavam,
sementes germinavam leituras e livros floresciam margaridas
O mundo amadurecia lenta e sabiamente 
perante o silêncio das palavras e
dos meus mais frescos sorrisos de cachoeira.


23 de janeiro de 2013


Nunca mais li o rio,
nunca mais soletrei plantações,
nunca mais escrevi jardins.
Estou impregnada de cidades.
Amanhã, verdes chegarão pelo correio
e na primavera da tarde
beberei das entrelinhas do rio.

9 de janeiro de 2013


O menino sonhou que voava
Quando acordou, o chão ainda continha seus pés
Certo do infinito, ele sorriu
e comeu um biscoito feito de vento.

7 de setembro de 2012


Simples


A cerca velha de bambu guarda o quintal
Onze horas  misturam-se aos temperos 
sob os olhos dos tecidos do varal
A cozinha cheira a pão e café,
a janela verde sorri  e o portão respira aliviado
O tempo, por fim,  vai se deitar.
Tudo é silêncio colhido no pé

16 de agosto de 2012

Enquanto os vejo...


Os varais me encantam...
(escrevo enquanto vejo-os balançar)
São felizes, repletos de possibilidades.
Neles convivem, harmonicamente,
o velho, o cerzido, o novo e o tantas vezes tingido...
O engomado, o mal lavado e o roto
O preto, o branco e o absurdamente colorido.
E todos a mim parecem ser só sorrisos...

8 de agosto de 2012


Aos poucos vão se apagando...


Tenho sentido um cansaço profundo
de querer viver a poesia
contrariando as borrachas negras do mundo
Se faço vestidos florais, logo os vejo rotos
Ensaio brincadeiras de infância
nos mais verdes quintais
Desenho a rima e a letra,
desfaço-me das medidas
nas quais se enquadram temporais
Subo e desço em teias
tecendo novos varais, 
mesmo assim, as borrachas,
de cores de tempestade,
apagam as minhas metades
de futuros milharais.

19 de julho de 2012

Sim



No dia nada havia
Na noite, também
Conforme os dias se passaram,
compreendi que não tinha ninguém.

19 de junho de 2012


Assim

Quando emudeci o dia falava por demais
Varais balançavam-se ao dispor,
mas, nada parecia querer balançar...

Quando emudeci era dia 
e a manhã vestida de sorrisos
estendia-se querendo invadir a tarde,
mas, nada parecia querer sorrir...

Quando falei a noite estava alta
e um sono doce, repleto de sonhos impossíveis,
habitava travesseiros e colchões.
Mas, não havia ninguém para ouvir...
Eu, então, emudeci.

17 de abril de 2012

Laço

Eu sei quando você vem...
Dona do meu destino,
regente do que ensino,
mestra do que ainda nem sei
 A porta sempre aberta,
a caneta já a mão
Manda que eu obedeço,
semeia que eu já floresço,
insinua que eu dou a mão
Meu nome não é o que conta,
eu sou apenas uma conta
no rosário do teu coração
Pede que eu refaço,
manda que obedeço,
Chega sem marcar a hora
estabeleça-se sem demora
Dita a palavra e dê a rima
Eu sou a linha
Não permita o meu desalinho
Conduza-me,
leva-me à calmaria,
pois, és o rico bordado ao qual chamo POESIA.

Encaixe

Queria saber,
mas, juro que não sei
Não me encaixo,
não me acho como acham vocês
Se o sol se põe,
já é madrugada no meu tempo
Se chove e você se cobre com as telhas da varanda,
eu já me encharquei e me sequei
Quando o sal é ainda pitada,
eu há muito me salguei
Juro que não sei
Não me encaixo,
não me acho como acham vocês.

11 de abril de 2012

Resquícios

Quando eu era menina
as frutas eram mais doces
Choviam esperanças
enquanto as janelas respiravam
Nos vestidos haviam
botões de quimeras
As palavras sorriam encantos...
Quando eu era menina
bebiam-se gentilezas,
falavam-se doçuras
No tempo dos jardins,
dos perfumes e afins
No tempo dos quintais,
das flores dos laranjais,
das brincadeiras mais brejeiras
Uma época de melados
que hoje vive em guardados,
potes de infância verdes e carmim 
Resquícios de menina,
conservas de mim.