1 de março de 2012

Os remendos

Há muito tempo não tenho o prazer
de costurar em um tecido novo
Vivo de remendos.
De fazer incontáveis disfarces
no pano já roto
Olho a mesa de costuras
com sua madeira velha,
a tesoura pousada sobre a almofada de cetim azul...
Tão gasto...
Alfinetes e agulhas enferrujam por todo lado
em uma vida sem porquês
Em mim, o deserto se instala
e, pouco a pouco, tempestades de areia
cobrem o que antes era belo...
Hoje, sexta-feira, como em todos
os outros dias, não há novidades...
Então, ponho-me a remendar e emendar
os retalhos de uma já distante primavera...

4 de fevereiro de 2012

A conquista


Buscando ser flor, fiz-me semente
Na ânsia de fazer-me bela,
encantei-me certa vez
com um tecido de delicadeza ímpar
que vivia a cobrir um eletrodoméstico
Conquistei aquele primor
e senti, por fim, na pele,
como são lindas as capinhas de liquidificador...

11 de janeiro de 2012

Bonitinho

Bonitinho é receber uma só  flor
vinda ali mesmo do cantinho, da esquina...
Uma Margarida, Onze horas, Bonina...
Ou ainda aquela que nem mesmo o nome se conhece...
Bonitinho é apelido com carinho,
declaração em guardanapo,
chá para quem está gripado...
Bonitinho é chegar quando não se espera
é acreditar em sonhos e falar quimeras,
é dividir comida no prato mesmo raso e raro
Bonitinho é saber que a infância passou,
mas que ainda tenho direito a recreios...

8 de janeiro de 2012

Rasos

Teu olhar, pouco a pouco,
vem deixando de ser meu espelho
Leituras turvas, reflexos embaçados...
Olhos rasos, rasos demais
para que seja possível a mim
voltar a mergulhar...

6 de janeiro de 2012

Por ignorar

A rua tinha uma alma de sorriso triste...
Eu, contentamentos a oferecer
Mas seus clamores estavam escritos
em língua estrangeira
Por mais que eu quisesse afagá-la,
nunca pude compreendê-la.

4 de janeiro de 2012

Pequenezas

Os pormenores me encantam...
Sou vírgula
Os detalhes me enternecem
Sou orvalho
As miudezas me deliciam,
nesse instante, sou botão
As pequeninas demostrações
de afeto são divinas
e para isso, estou
eternamente a disposição...

29 de dezembro de 2011

O sonho de Maria

Maria voltou da feira
como quem havia comprado o dia
Proprietária que era agora,
adocicou, a seu gosto, o azedume das manhãs
Para o almoço fez de tudo um pouco,
com seu  modo elegante  e seu vestido quase roto
Separou da vida  o amargo e o caroço
Quando a noite principiou
ela sem titubear, fez das sobras da compra um caldo,
 saboreando-o sem nem mesmo experimentar...
Ela o continha.
Maria foi menina de sonhos sempre descalços,
moça da lida sem flor,
mulher que o peso do coração arqueou
No presente faz remendo
no sentimento que  insisti  em esgarçar
Ela que pensava ter  na feira adquirido o dia,
tem no fundo da sacola
uma carne magra, farinha e fubá
Por favor, não acorde Maria
Deixe que ela tenha o direito de se esquivar
às doses diárias de dor,
ao fogão repleto do que não há,
e à conjugação longínqua do verbo amar.
Deixe Maria dormir.
Que ela construa seus sonhos ao seu bel prazer
escondida da consciência dolorida do sofrer
Dorme Maria, dorme...
Amanhã é dia de feira.
Maria, pode dormir...

27 de dezembro de 2011

Máscaras

Promessas vãs
no afã de iludir
dilaceraram meu coração
No simples afã de iludir
roubastes com máscaras e armas sutis
meu real motivo de sorrir
Promessas vãs,
promessas vãs...

26 de dezembro de 2011

Todas as estrelas foram minhas

Vi, enfim a luz e ela era bela
Perdi-me dentro da tempestade
e ela traduziu-me como ninguém jamais.
Por fim, viestes.
Eu há tanto tempo te chamo...
Contou-me sobre o teu infinito
 e eu vislumbrei possibilidades...
De repente todas as estrelas
eram possíveis e minhas.
A lua antes tão distante
agora era o meu presente mais real
Veio repleta de palavras
que só um poeta teria e tem
Como em toda a vida
me enchestes de gentilezas e doçuras,
compreendestes meu texto, meu avesso,
meu direito e todas as minhas loucuras
Hoje não me parece segunda,
uma segunda-feira qualquer...
Hoje foi meu dia de Natal
que ninguém, nunca irá tirar de mim...

24 de dezembro de 2011

O sofrimento

Dor inclemente,
persistente, pontual....
Que nenhum remédio passa...

Reflexos

A fotografia na parede não diz mais quem sou,
não me reconheço em letras ou versos
como fazia antigamente com grande facilidade
Estou vivenciando o vazio
e no vazio, consequentemente, o nada
O abrir das janelas não me faz falta
e a promessa de dias vindouros
em nada muda a sua ausência
Venho me diluindo, me diluindo ...
Não mais preciso ser quem sou,
preciso apenas ser
aquilo que de mim sobrou.

22 de dezembro de 2011

Desilusão

Pingastes sorrateiramente
no meu mais doce chá
gotas sutis de desilusão.
Eu, por não conhecer  tua intenção,
o  bebi como se fosse amor.
Pareceu-me o mais doce dos chás
até que senti,  quando sorvia e
ainda apreciava o último gole,  
um cheiro suave da seiva com que o  temperastes
Perdi pouco a pouco a delicadeza,
conheci a estranheza,
e desde aquele dia vivo a sentir frio.
Meus olhos desconheceram a luz,
as palavras perderam o tom...
Longe ainda escuto o que me parece
um ensaio de um som.
Desde aquele dia a xícara florida vive só
Nunca mais foi ocupada pelo chá
Vive como eu:
procurando o que conhecia
e desconhecendo o que
pensava saber que existia

15 de dezembro de 2011

Deselegância

O tempo foi
profundamente deselegante
com as tramas do tecido
O fez roto, gasto, puído
Perdeu-se  nesse desgaste
memórias e traços florais
O cabide hoje sustenta
reflexos pardos do que foi
o mais belo tecido
que a renda um dia sobrepôs.

14 de dezembro de 2011

A busca de Maria

Maria, Maria...
Para onde você foi
quando a vida lhe oferecia
quimeras e alegrias?
Fui buscar ao longe,
fui buscar ao longe...
Maria, Maria...
Por que você não foi
quando a vida lhe chamou
ao longe, ao longe?
Estive aqui, por receio
de perder a visita da vida
como foi da última vez
em que fui buscar ao longe,
em que fui buscar ao longe...

6 de dezembro de 2011

No tempo da estranheza

Quando quis, enfim,  ouvir
o mundo apresentou-me o silêncio
Quando já sabia o que dizer, vi-me só
Quando abri os olhos, o jardim se recolheu
a  um sono profundo e aparentemente sem fim...
Meu coração conheceu, assim,
um tempo de estranheza
no qual querer não mais bastava...
Por fim, conformei-me em saber-me viva,
apesar de nada mais ter a possibilidade
de um dia vir a me pertencer.

31 de outubro de 2011

Bonina

A beleza da palavra e o colorido da flor
compunham a riqueza do jardim da minha avó
Pequeno, simples até...
A casa de madeira de pintura desbotada
deixava entrever um rosa seco e o verde como que saído da cana
Era lá, perante o desgaste da casa, que a Bonina florescia
Minha avó chamava-me para vê-la
nas raríssimas vezes em que eu a visitava
Tenho na memória a imagem da flor,
mas, o nome perdeu grande parte do encantamento...
Belo mesmo era ouvi-lo dito por ela,
quando pegando-me pela mão falava:
Venha criança pequena, ver o sorriso doce
que nos oferece a Bonina...

5 de outubro de 2011

Os jarrinhos

No tempo em que havia jarrinhos de flores
sobre as mesas das professoras,
o mundo ainda cabia em mim.
Palavras doces saltavam dos livros,
os porquês eram respondidos,
a vida serenava...
No tempo dos jarrinhos
havia uma certeza de pertencer,
os sabores se acentuavam,
cirandas compunham a noite
e a noite permitia-se, assim, se compor
Repleta de afetos, a correspondência chegava
com a mesma naturalidade
com que o rio escrevia suas voltas
A manhã cheirava a café, a tarde a broas.
O perfume era de alfazema e todo mundo
estava sempre cheiroso e satisfeito com essa essência só
Tudo era simples, adoravelmente simples...
Era certo que a vida serenava e isso era o que bastava.
Tudo isso no tempo em que havia
jarrinhos de flores sobre as mesas das professoras...

9 de setembro de 2011

À toa

À toa, passou a tarde
e com ela o vôo do pássaro e a pressa do ninho
À toa, vi a noite tecer segredos
e guardá-los sob a colcha da escuridão
À toa, colhi serenos na madrugada
tentando esquecer os medos
Assim... À toa
como quem divaga sobre a dor,
como quem busca compreender
pelo perfume, a flor
À toa...
Como se fosse possível viver,
como quem nada quer, tudo querendo...

6 de setembro de 2011

Um certo Manacá

No meu tempo de criança
ouvia a minha avó descrever
a beleza e o perfume do Manacá
Minha imaginação corria como carretel,
bobina nova, graça de menina
O Manacá criou raízes em mim
e em algumas primaveras ele ainda floresce
em meio ao desalinho das bobinas,
ao emaranhado dos carretéis,
no esforço da memória que quase sempre desafina.